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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Periodização do treino II - Periodização convencional

“Futebol é assim: Treino é treino, jogo é jogo”
Valdir Pereira “Didi” – jogador e técnico

Fácil perceber que se é tratada por “convencional”, é a mais usual mais unanimemente aceite.

A partir do modelo base de Metveev, foram-se desenvolvendo modelos mais específicos e condizentes com a realidade actual. Na generalidade, com ou sem variante de denominação, os modelos convencionais usam conceitos enraizados
- Pré-época
- Período competitivo
- Forma e picos de forma
- Volume vs Intensidade
- Cargas físicas
- Divisão entre trabalho técnico, táctico e psicológico

No planeamento da época (periodização) entram os 3 períodos básicos
- Período preparatório, vulgo pré-época, onde se privilegia a aquisição de componentes abstractas, predominantemente físicas, resistência e velocidade onde se alicerçará todo o trabalho das fases seguintes. Privilégio das cargas físicas progressivas, inicialmente de baixo volume que vão aumentando até um valor máximo onde a componente física é exacerbada em detrimento das componentes táctica e técnica. Objectivo primordial é aquisição da forma física.
- Período competitivo, época desportiva, diminuição do volume de treino com consequente aumento da intensidade. Supostamente a forma física foi adquirida no período preparatório, a preocupação é a sua manutenção. Divisão da fase em ciclos, procuram-se “picos de forma”, é em busca desses que se programa a manutenção e/ou reconstrução da forma física ao longo da época, baseando-se no efeito retardado das cargas físicas. Os aspectos tácticos e técnicos, treino específico, adquirem neste período a importância máxima. Sempre baseados em princípios de manutenção da forma física. Basicamente o pensamento é “precisamos de estar no máximo das nossas capacidades no período (mês, semana, mesociclo…) X, trabalhamos os aspectos físicos com antecipação para, no máximo da forma física, estarmos aptos a desenvolver o trabalho mais específico”.
- Período de transição, “férias”, a principal preocupação é conseguir obter um efeito optimizado entre descanso e manutenção de capacidades físicas básicas que permitam encarar o próximo período preparatório com condições globalmente satisfatórias a nível físico, psíquico e motivacional.

Na periodização convencional verificamos uma predominância do factor “forma física”, a época é trabalhada em função dos períodos de aquisição, manutenção ou reconstrução desta componente. O trabalho táctico e técnico é suportado pelo trabalho físico entretanto desenvolvido.
Não é por isso de estranhar que o resultado do treino baseado na periodização convencional seja, predominantemente, obtido pela soma das partes. É comum falar-se em “estar bem fisicamente mas ainda ter muito que trabalhar em termos tácticos”, ou até que “a equipa está a decair de forma nos últimos jogos”…
Os seus seguidores, a generalidade dos treinadores, defende o facto de assim se conseguir uma programação global da época onde se identificam facilmente os aspectos a trabalhar em cada período, sendo por isso possível obter “picos de forma” quando necessário.
Os seus detractores defendem que a divisão da época em fases nem sempre coincide com a realidade competitiva ou com as necessidades da equipa. De que me serve programar um “pico de forma” para Fevereiro se em Janeiro a equipa não conseguir corresponder ás minhas expectativas, podendo até tornar inútil o tal “pico de forma”?

Dissemos atrás que o resultado obtido no treino baseado na periodização convencional é uma soma de partes, física, táctica, técnica e psicológica. A periodização convencional é, pela sua própria essência, um terreno propicio à aplicação da metodologia de treino integrado onde se individualizam as componentes para a partir daí construir o jogo.

Falaremos do treino integrado no próximo post.

“O futebol depende de estado atlético e também não é mais possível não saber jogar sem a bola – o mundo mudou, o futebol também”
Eugénio Figueiredo – dirigente uruguaio e da Conmebol

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Periodização do Treino

Uma teoria não é o conhecimento, ela permite o conhecimento. Uma teoria não é uma chegada, é a possibilidade de uma partida. Uma teoria não é uma solução, é a possibilidade de tratar um problema. Uma teoria só cumpre o seu papel cognitivo, só adquire vida, com o pleno emprego da actividade mental do sujeito. Edgar Morin (2003)

Todo e qualquer trabalho exige planeamento, método e tempo. A mais simples tarefa que possamos executar engloba estas componentes. Para tomar um café seguimos uma determinada sequência de actos, desde o colocar ou não açucar até ao acto de bebida propriamente dita. Ainda que mecanizados esta sequencia foi há muito planeada, pensada e testada (ainda se lembram como deitavam o açucar fora da chavena nas primeiras tentativas?).Na organização de um treino de futebol é necessário exactamente o mesmo, planeamento, método e tempo.
Falamos nos posts anteriores do planeamento (construção do modelo de jogo, pressupostos básicos de treino...) falaremos de seguida em métodologia  e tempo.

Porque se fala em pré-época, periodo competitivo, picos de forma? Precisamente porque existe planeamento, metodologia e tempos a descobrir e cumprir.

Usualmente designado com o pai do treino desportivo Lev Pavilovch Matveev criou diversos conceitos que perduram até hoje baseando-se nos principios de que um atleta tem de construir, manter e perder a sua forma desportiva ao longo de um ciclo competitivo (1961, 1977, 1981, 1986).
O ciclo competitivo proposto por Matveev dividia-se em 3 grandes fases que acabaram por se generalizar e ainda hoje são tidas como os 3 grandes períodos do treino desportivo.
- Periodo preparatório, fase de aquisição/ construção de forma desportiva
- Periodo competitivo, fase de manutenção
- Periodo transitório, fase de perda de forma desportiva.


No gráfico de Metveev temos em consideração volume e intensidade (linhas superiores I e Ia) e as linhas dinamicas de cargas (linhas inferiores II e IIa).
Apesar dos conceitos básicos introduzidos, este modelo foi-se tornando obsoleto, obviamente, demasiado rigido para alguns, demasiado universal para outros. Certo é que criou linhas orientadoras a partir das quais se foi evoluindo, daí a sua actual importância.

Dos modelos mais contemporâneos criados a partir de Matveev  destaca-se Tudor Bompa que propõe modelos mais específicos para os desportos a treinar e leva em conta a sobrecarga da calendarização desportiva actual.

Com o desenvolvimento crescente de competitividade os modelos foram-se adaptando à realidade de cada desporto.
Actualmente a "discussão" acerca da periodização e metodologia no treino de futebol situa-se em torno de 3 questões básicas:
Periodização convencional - Modelos de treino baseados e adptados da proposta de Metveev, once imperam os clicos.
Treino integrado - Metodologia onde o treinador desmonta o jogo e treina as suas diversas componentes separadamente. O jogo constroi-se a partir do treino.
Periodização tactica - Metodologia segundo a qual o treino se constroi a partir do jogo. Definindo-se o modelo de jogo procede-se à construção do treino.

Nos postes seguintes abordaremos cada uma dessas questões.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Treino I

"Treinar significa melhorar sob o ponto de vista do jogo. Tendo claramente definido um modelo e os princípios que o orientam, o que acontece diariamente é exacerbação desses princípios em busca da melhoria da qualidade de jogo e daquilo que é a forma de jogo estipulada pelo treinador" Rui Faria, 2003

O sucesso de uma equipa de futebol é um trabalho quase invisível realizado dia após dia. Muitas vezes são os pequenos pormenores de treino que facultam à equipa a possibilidade de tomar a melhor decisão num momento crucial do jogo.
Um treino de futebol é muito mais que agrupar os jogadores com vista à aquisição de forma física ou um espaço onde treinador transmite aos seus jogadores quais as suas ideias. O treino é composto por todas as componentes que se englobam no jogo formal, o aspecto físico, psicológico, condicionantes tácticas e técnicas.

"correr por correr tem um desgaste energético natural, mas a complexidade desse exercício é nula. Como tal, o desgaste em termos emocionais tende a ser nulo também, ao contrário das situações complexas, onde se exige aos jogadores requisitos tácticos, técnicos, psicológicos e físicos. É isto que representa a complexidade do exercício e que conduz a uma concentração maior." José Mourinho


Um período de treino é constituído por ciclos e princípios.

Ciclos, visão estruturar e organizar os diferentes períodos de treino.
Macro ciclo - Período usualmente correspondente a 1 época desportiva
Meso ciclo - Períodos variáveis de 2 a 6 semanas (micro ciclos) onde se treina determinadas variáveis de acordo com etapas próprias.
Micro ciclo - Período semanal de treino, normalmente de jogo a jogo.

Princípios, visam optimizar a performance da equipa/atleta através de um equilíbrio entre esforço/recuperação apropriados com vista á obtenção dos objectivos determinados.

Principio da individualidade biológica - cada atleta é um ser único e deve ser tratado como tal. Se uns atletas são mais "evoluídos" fisicamente outros serão superiores tecnicamente.
Principio da sobrecarga ou progressividade - O corpo sofre alterações decorrentes dos estímulos sofridos (treinos no nosso caso). As cargas ministradas devem ser progressivas permitindo ao corpo adaptar-se até atingir as suas capacidades. O organismo adaptar-se-à mais rapidamente no inicio e abrandará a adaptação á medida que se vai aproximando do seu limite. Muito importante a relação entre cargas (esforço) e recuperação. Excesso de carga conduzirá à exaustão, demasiado tempo de recuperação não elevará a performance do atleta já que o organismo não acumulará a próxima carga no "patamar" óptimo para uma evolução continua.
Principio da continuidade - O factor que assegura a melhoria do rendimento é a continuidade do treino. A continuidade permitirá aplicar o principio da progressão (cargas crescentes) e manter os indices competitivos da equipa.
Principio da inter-dependência entre volume e intensidade - De acordo com os objectivos pretendidos o treino privilegiará volume OU intensidade. Poder-se-á dizer que "volume" será um trabalho de baseado na quantidade geralmente com o intuito de adquirir um background (seja físico, táctico ou técnico) para posteriormente trabalhar a "intensidade" que se traduz numa exigência superior de rapidez (de velocidade, de execução, de raciocínio e decisão...) em detrimento da quantidade, volume, de treino.
Principio da especificidade - o treino deve direccionar-se para o fim especifico a que se destina. No caso do futebol o principio da especificidade abrangerá o treino táctico-técnico.
Principio da variabilidade - Pretender-se-à um treino abrangente em termos físicos, tácticos, técnicos e psicológicos. O treino deverá integrar todos esses itens nos seus exercícios já que quanto mais variáveis se introduzirem no treino, respeitando os princípios anteriores, maior e mais rápido será o desenvolvimento do atleta/equipa e melhor preparado se encontrará perante as situações reais de jogo.


No próximo post será abordada a questão de periodização do treino.